Troquei meu televisor em branco-e-preto por um televisor em cores com controle remoto , para facilitar a vida de meus filhos , que , agora , sabe como é, época de provas , estão se virando mais que pião na roda . Imaginem que um outro dia um professor teve a coragem de mandar meu filho gavião-da-fiel fazer um trabalho sobre o Sócrates.
Fiquei uma arara .
Tirou zero .
Peguei a escalação completa do Guarani , botei o Neneca no gol , fiz a maior apologia do time da terra das andorinhas . Pra me cobrir e não deixar nenhum flanco desguarnecido, telefonei pro meu amigo Antônio Contente , que transa em assuntos culturais e conexos (como seja, a imprensa ), e pedi por favor que me mandasse uma camisa autografada. Diretamente de Campinas e pelo malote .
Essa não deixei barato . Fui de peito aberto , às falas .
— Ilustre — eu disse —, com o perdão da palavra , mas que diabo de safadeza vossa senhoria anda arrumando pro meu garoto gavião-da-fiel? Então eu perco tempo , consulto a história gloriosa da equipe campineira, faço a maior zorra com o time do Brinco de Princesa, e o garoto ganha então cartão vermelho ?
— Foi o senhor quem fez a lição ?
Fiquei meio sem jeito :
— Bem , fazer não fiz. Dei uma orientação didática . Pai é para essas coisas ...
— Se aceita um conselho , pare de dar palpite na lição de casa de seu filho . O senhor não conhece nada do Guarani .
— Tá bem — eu disse —, não vamos brigar por tão pouco . O professor pode dar outra colher de chá ao menino ?
Deu. O professor quer agora os capítulos completos de um romance , por coincidência com o mesmo nome do time de Campinas : O Guarani . É qualquer coisa com índio sioux que de repente se vê obrigado a salvar a mulher biônica das águas da enchente . Deve ser telenovela em cores . Mas só para complicar a vida do meu filho , o professor não revelou o horário . Porém desta vez ele não me ferra . Pela dica do enredo que deixou escapar , deve ser mais uma dessas sucessões de cenas de violência que a gente é obrigado a engolir todas as noites na televisão . Estou de antena ligadona, meu chapa .
Lourenço Diaféria. In: Para gostar de ler . São Paulo, Ática, 1981, v. 7

0 comentários:
Postar um comentário