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Xará, a gente não deve nunca cuspir num rio , por menor que seja esse rio , porque ninguém pode dizer dessa água não beberei. Um rio tem curvas e voltas . O rio é como a vida : mistérios , sombras , grotas , reflexos de prata , remansos e correntezas . O rio , por menor que seja, é uma lição de descobertas . Na escola as professoras mandam decorar que um rio é um curso de água que corre para o mar . Mas um rio é muito mais que isso . Um rio está acima das noções de Geografia ; é mais que um traço trêmulo no mapa , é mais mistério que um artefato hidráulico . Um rio são os pedregulhos , a barranca , os chorões , os galhos debruçados sobre o espelho , anteriores às pontes de concreto . Um rio são os olhos insones dos peixes irrequietos , o lodo frio , a loca dos cascudos , o remoinho , a corredeira , o réquiem dos defuntos afogados, a urina dos moleques , o olor da pele das mulheres , o agachar das lavadeiras , o itinerário dos barcos e o silêncio dos pescadores .
O rio é o patrimônio das pessoas simples , das cabritas e dos pássaros .
O rio é o grande monumento da cidade .
Xará, dize-me que rio tens, te direi quem és.
Teu rio é o horóscopo do teu futuro : claro , pardo ou escuro .
Teu rio mostra o que pensas das pessoas , o que fazes com as pessoas e às pessoas ; se és um homem livre , bom , sensato , feliz ou se és apenas um homem que não tem sequer a alegria de um rio .
O cheiro do rio é teu atestado de antecedentes .
Xará, um rio pode ser o riso líquido das crianças ou as lágrimas secas dos velhos .
O rio é a fração ideal de teus sonhos ; o brinquedo que restou à humanidade salva do incêndio , que a espada de fogo ateou no paraíso perdido entre o Tigre e o Eufrates. Xará , o rio é tua carteira de identidade , teu certificado de sanidade , teu comprovante de civilidade , teu erregê; registro de gente . Um rio é feito para ser amado , para correr e saltitar , para beijar as margens com volúpia . Um rio é feito para ser prestigiado, namorado , para ser mostrado aos turistas e aos de casa , com orgulho , assim :
— Olhe, veja como cuidamos deste tesouro , deste símbolo , destas raízes, desta cortina de névoa que à noite se levanta, deste véu de noiva que escorre da colina , desta fonte de luz e graça , desta bênção .
Veja como somos amigos do rio , como abrimos uma avenida na cidade para recebê-lo com alegria . E veja como o rio percorre, tranqüilo e terno , as doces horas das núpcias com a cidade .
Há grandes rios .
Há rios tão grandes que as pessoas devaneiam o outro lado do horizonte líquido .
Nesses rios grandes as crianças nascem botos e as mulheres engravidam em canoas de remos .
Esses rios disputam com o oceano ; são restos do dilúvio .
Navegando nesses rios , o rei da terra não passa de traíra .
Mas os rios modestos, mesmo os riozinhos, também são importantes , e também nesses não se deve cuspir , xará .
Um ribeiro , um regato , um riacho , um ribeirão , um córrego , todos eles fazem o mar , onde ninguém distingue o grande do pequeno .
E essa igualdade é, talvez , a maior lição que os rios dão.
Não foi à toa , xará , e sim por sabedoria das coisas , que a Independência foi proclamada às margens de um rio (tão pequeno e raso que quase morre, por cuspirem nele).
(DIAFÉRIA, Lourenço. A morte sem colete . São Paulo: Moderna , 1986. p. 103)
Sedimentos e sujeira - rio Tietê - arredores do Parque Ecológico do Tietê - Núcleo Engenheiro Goulart, São Paulo, SP, Brasil


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