quinta-feira, 28 de julho de 2011

A meu amigo, o Piracicaba

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Xará, a gente não deve nunca cuspir num rio, por menor que seja esse rio, porque ninguém pode dizer dessa água não beberei. Um rio tem curvas e voltas. O rio é como a vida: mistérios, sombras, grotas, reflexos de prata, remansos e correntezas. O rio, por menor que seja, é uma lição de descobertas. Na escola as professoras mandam decorar que um rio é um curso de água que corre para o mar. Mas um rio é muito mais que isso. Um rio está acima das noções de Geografia; é mais que um traço trêmulo no mapa, é mais mistério que um artefato hidráulico. Um rio são os pedregulhos, a barranca, os chorões, os galhos debruçados sobre o espelho, anteriores às pontes de concreto. Um rio são os olhos insones dos peixes irrequietos, o lodo frio, a loca dos cascudos, o remoinho, a corredeira, o réquiem dos defuntos afogados, a urina dos moleques, o olor da pele das mulheres, o agachar das lavadeiras, o itinerário dos barcos e o silêncio dos pescadores.
O rio é o patrimônio das pessoas simples, das cabritas e dos pássaros.
O rio é o grande monumento da cidade.
Xará, dize-me que rio tens, te direi quem és.
Teu rio é o horóscopo do teu futuro: claro, pardo ou escuro.
Teu rio mostra o que pensas das pessoas, o que fazes com as pessoas e às pessoas; se és um homem livre, bom, sensato, feliz ou se és apenas um homem que não tem sequer a alegria de um rio.
O cheiro do rio é teu atestado de antecedentes.
Xará, um rio pode ser o riso líquido das crianças ou as lágrimas secas dos velhos.
O rio é a fração ideal de teus sonhos; o brinquedo que restou à humanidade salva do incêndio, que a espada de fogo ateou no paraíso perdido entre o Tigre e o Eufrates. Xará, o rio é tua carteira de identidade, teu certificado de sanidade, teu comprovante de civilidade, teu erregê; registro de gente. Um rio é feito para ser amado, para correr e saltitar, para beijar as margens com volúpia. Um rio é feito para ser prestigiado, namorado, para ser mostrado aos turistas e aos de casa, com orgulho, assim:
— Olhe, veja como cuidamos deste tesouro, deste símbolo, destas raízes, desta cortina de névoa que à noite se levanta, deste véu de noiva que escorre da colina, desta fonte de luz e graça, desta bênção.
Veja como somos amigos do rio, como abrimos uma avenida na cidade para recebê-lo com alegria. E veja como o rio percorre, tranqüilo e terno, as doces horas das núpcias com a cidade.
grandes rios.
rios tão grandes que as pessoas devaneiam o outro lado do horizonte líquido.
Nesses rios grandes as crianças nascem botos e as mulheres engravidam em canoas de remos.
Esses rios disputam com o oceano; são restos do dilúvio.
Navegando nesses rios, o rei da terra não passa de traíra.
Mas os rios modestos, mesmo os riozinhos, também são importantes, e também nesses não se deve cuspir, xará.
Um ribeiro, um regato, um riacho, um ribeirão, um córrego, todos eles fazem o mar, onde ninguém distingue o grande do pequeno.
E essa igualdade é, talvez, a maior lição que os rios dão.
Não foi à toa, xará, e sim por sabedoria das coisas, que a Independência foi proclamada às margens de um rio (tão pequeno e raso que quase morre, por cuspirem nele).

(DIAFÉRIA, Lourenço. A morte sem colete. São Paulo: Moderna, 1986. p. 103)
Sedimentos e sujeira - rio Tietê - arredores do Parque Ecológico do Tietê - Núcleo Engenheiro Goulart, São Paulo, SP, Brasil



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