E como ontem estivesse chovendo, tive a infeliz idéia , ao sair à rua , de calça r um velho par de galochas . Já me desacostumara delas, e me sentia a carregar nos pés algo pesado, viscoso e desagradável, dando patadas no chão como um escafandrista de asfalto . Ainda assim , não deixaram de ser , em tempos de chuvas , a única proteção efetiva para o sapato .
“É que não se usa galocha há mais de vinte anos ”, advertia-me uma irônica voz interior . Desconsolado, parei e olhei em volta . Naquela festa de sol , em plena Esplanada do Castelo , quem é que iria estar de galocha , além de mim ? Vi passar a meu lado os sapatos brancos de um homem pernosticamente vestido de branco . Nem tanto ao mar , nem tanto à terra , pensei. Saíra depois da chuva , certamente . Veio-me a desagradável impressão de que todo mundo reparava nas minhas galochas .
No restaurante , onde entrei arrastando os cascos como um dromedário , resolvi me ver livre das galochas . Depois de acomodar-me, descalcei-as, procurando não chamar a atenção dos outros fregueses, deixei-as debaixo da mesa .
Ao sair , porém , o garçom , solícito , me advertiu em voz alta , lá do fundo :
— O senhor está esquecendo suas galochas !
Humilhado, voltei para apanhá-las, e sem ligar mais para nada , saí com elas na mão .



0 comentários:
Postar um comentário