terça-feira, 16 de agosto de 2011

O Pavão, Rubem Braga


Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas dágua em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.
Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.
Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.

Novembro, 1958

200 crônicas escolhidas. 20ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 363

0 comentários:

Postar um comentário

 
Copyright Páginas crônicas 2009. Powered by Blogger.Designed by Ezwpthemes .
Converted To Blogger Template by Anshul .